Em diálogo com Carlos Reis, num volume que teve a sua primeira publicação em 1998 – ano do prémio Nobel – e que foi sucessivamente reeditado em 2014, José Saramago (1922-2010), tendo sido interrogado relativamente à sua escrita, afirmou: «Aquilo a que eu aspiro é traduzir uma simultaneidade, é dizer tudo ao mesmo tempo». (Reis, 2015 [1998]: 104). E numa conferência que deu na Università Roma Tre, em 2004, dividiu a sua própria produção romanesca em duas épocas – uma divisão ulterior em relação ao célebre discurso da Estátua e da Pedra pronunciado em Turim em 1999 –, sendo a segunda época inaugurada por Ensaio sobre a Cegueira (1995) e caracterizada pelo uso da alegoria: com efeito, a partir desse momento e até ao fim da vida do escritor, a própria cegueira, e depois a procura das identidades dos desconhecidos (Todos os nomes, 1997), a exploração capitalística (A Caverna, 2000), o engano pela semelhança (O Homem Duplicado, 2002) e o boicote político (Ensaio sobre a Lucidez, 2004) se tornam, nas palavras de Giorgio de Marchis, «correlato analogico» (de Marchis, 2022) de uma realidade que definitivamente encontra na linguagem figurativa a única forma possível para atingir a representação total de que falava em 1998. Ainda de acordo com Giorgio de Marchis, temos nessa fase «l’interpretazione del reale piuttosto che il suo rispecchiamento» (de Marchis, 2020: 90): as alegorias, em virtude do seu valor de síntese do real, outorgam a estes textos um caráter de exemplaridade com relação a alguns assuntos (a condição humana ancestral, as falhas do sistema económico, os problemas da classe política etc.) onde o ponto de vista do autor é patente nos desdobramentos da ação. Mas, se é a partir deste momento que a ficção saramaguiana amplifica o teor prospetivo do seu conteúdo narrativo, no significante textual a presença do autor já pairava em alguns recursos textuais, o principal dos quais é a metáfora. Neste trabalho serão apresentadas algumas das mais significativas metáforas presentes nos romances de José Saramago publicados em vida pelo autor, os compreendidos entre Manual de Pintura e Caligrafia (1977) e Caim (2009)1; no final, se estabelecerá um diálogo com as de outro grande autor da literatura portuguesa, José Maria Eça de Queirós (1845-1900). A escolha do cotejo com Eça deve-se ao fato deste, apesar da distância cronológica e estética em relação a Saramago, faz um uso da linguagem figurativa que na intenção narrativa, se não na construção sintática, contém significativas semelhanças.
A metáfora em José Saramago: diálogos com Eça de Queirós / Felici, Maria Serena. - (2025), pp. 363-377.
A metáfora em José Saramago: diálogos com Eça de Queirós
Felici, Maria Serena
2025
Abstract
Em diálogo com Carlos Reis, num volume que teve a sua primeira publicação em 1998 – ano do prémio Nobel – e que foi sucessivamente reeditado em 2014, José Saramago (1922-2010), tendo sido interrogado relativamente à sua escrita, afirmou: «Aquilo a que eu aspiro é traduzir uma simultaneidade, é dizer tudo ao mesmo tempo». (Reis, 2015 [1998]: 104). E numa conferência que deu na Università Roma Tre, em 2004, dividiu a sua própria produção romanesca em duas épocas – uma divisão ulterior em relação ao célebre discurso da Estátua e da Pedra pronunciado em Turim em 1999 –, sendo a segunda época inaugurada por Ensaio sobre a Cegueira (1995) e caracterizada pelo uso da alegoria: com efeito, a partir desse momento e até ao fim da vida do escritor, a própria cegueira, e depois a procura das identidades dos desconhecidos (Todos os nomes, 1997), a exploração capitalística (A Caverna, 2000), o engano pela semelhança (O Homem Duplicado, 2002) e o boicote político (Ensaio sobre a Lucidez, 2004) se tornam, nas palavras de Giorgio de Marchis, «correlato analogico» (de Marchis, 2022) de uma realidade que definitivamente encontra na linguagem figurativa a única forma possível para atingir a representação total de que falava em 1998. Ainda de acordo com Giorgio de Marchis, temos nessa fase «l’interpretazione del reale piuttosto che il suo rispecchiamento» (de Marchis, 2020: 90): as alegorias, em virtude do seu valor de síntese do real, outorgam a estes textos um caráter de exemplaridade com relação a alguns assuntos (a condição humana ancestral, as falhas do sistema económico, os problemas da classe política etc.) onde o ponto de vista do autor é patente nos desdobramentos da ação. Mas, se é a partir deste momento que a ficção saramaguiana amplifica o teor prospetivo do seu conteúdo narrativo, no significante textual a presença do autor já pairava em alguns recursos textuais, o principal dos quais é a metáfora. Neste trabalho serão apresentadas algumas das mais significativas metáforas presentes nos romances de José Saramago publicados em vida pelo autor, os compreendidos entre Manual de Pintura e Caligrafia (1977) e Caim (2009)1; no final, se estabelecerá um diálogo com as de outro grande autor da literatura portuguesa, José Maria Eça de Queirós (1845-1900). A escolha do cotejo com Eça deve-se ao fato deste, apesar da distância cronológica e estética em relação a Saramago, faz um uso da linguagem figurativa que na intenção narrativa, se não na construção sintática, contém significativas semelhanças.| File | Dimensione | Formato | |
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